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~ Delirado por
†Cy Lira† [ ] |
Não é a infelicidade o que me preocupa. Longe disso! Acho que já me acostumei com ela, e há muitos anos, passei a ver beleza nas coisas tristes. Que alimento ultra-romântico para a poesia! Árvores dançando ao som de tempestades em dias de carnaval; relógios quebrados em momentos de pressa, máscaras tristes em teatros da vida... Ou máscaras felizes escondendo um semblante de tristeza.
Pior do que ser triste é se apegar à tristeza.
Tem um monte de gente dentro de mim, às vezes a situação fica caótica. Esquecem que embora sejam muitos, compartilham um único corpo. Querem ir a direções diferentes, mas a cabeça é minha, e quem comanda essa joça sou eu! (Sometimes...)
Agora ela fica ali soltando fumaça no ar, ao som de What Now my Love?, e essa é sua pergunta. Agora – eu digo – você vai sumir daqui com esse cigarro antes que eu o apague na sua testa.
Não gosto plenamente desta sensação de raiva, é como ser um leão numa jaula, ter toda essa força, essa fúria, e estar trancafiada. Posso assustar e fazer o público dar um passo pra trás, mas vou ser sempre inofensiva enquanto alguém tiver a chave. Meu dilema é que não existe chave; a única barreira entre o controle e a total falta dele, sou eu mesma! Segurar-me, prender-me, socar paredes, quebrar as coisas, ME QUEBRAR para não quebrar ninguém.
Mesmo assim meu esforço parece ser em vão. As pessoas só dizem, "nossa, como ela é agressiva", ou "tão reclusa!", "que vergonha, tsc, tsc...". É uma vergonha, realmente, que eu não ceda aos meus instintos e parta as caras que eu sonho em partir! Que toda essa brutalidade animalesca que eu tenho dentro de mim fique reservada para sonhos que não agüento ter.
Então, por eu estar aqui, não sou assim tão doente. Um doente que se preze fica sempre em sua cama, não come, não toma banho... Mas bem sei como é estar nessa posição. Já estivesse nesse lugar, onde tudo o que importava era uma cama. E agora eu estou ao lado dela, e que diferença faz? Estou mais motivada? Não. Penso menos em morrer? Não. Automutilação, ataques de cólera, cansaço extremo. Eu poderia ficar dias e dias reclamando de todas as minhas dores, e no final eu recomeçaria a reclamar de todas elas, porque não tem UM ÚNICO DIA em que não doa como o inferno aqui dentro! Nos meus sonhos dói! Eu estou presa numa maldita armadilha, em que ficar acordada é insuportável e dormir é insuportável, porque todos os meus atos me remetem a dor, uma dor que me sufoca e me impulsiona a causar mais dor, e me queixar, e afastar todas as pessoas que algum dia possam ter importado. Estou farta dessa situação! E agora, ouvir que estou brincando de casinha.
Ok! Os 11 comprimidos que eu tomo por dia, uma sessão com psiquiatra por semana, uma sessão com psicólogo por semana, e ainda assim tem dias que eu não tenho coragem de levantar da minha cadeira nem pra escovar os dentes e lavar o rosto, é TUDO uma brincadeirinha divertidíssima, e eu convido qualquer pessoa do planeta a vir brincar comigo!
Sem amor próprio, sem amigos, sem paciência pra higiene, sem função na Terra, odiada pela própria família, impossibilitada de amar ou sentir amor por outro ser humano, muitas vezes sem inspiração para escrever uma linha que seja, assistir um filme, ouvir uma música, ler um maldito livro, cruzar a fronteira entre meu quarto e o banheiro (que ficam um do lado do outro!). Desmotivada. É muito legal, eu fico rindo sem parar. (Não).
Eu sei muito bem como é não ter ânimo. Toda semana digo isso ao meu psiquiatra, é como se eu fosse cair no chão e fosse ficar ali caída pra sempre. E sabe, eu até queria isso. Não me mover, ser um vegetal.
Eu queria que as pessoas que me foderam tivessem REALMENTE fodido minha mente, de tal maneira que eu não pensasse em nada, que eu fosse uma retardada, condenada pra sempre, sem idéias, vazia (mais vazia do que já estou), que a minha cabeça fosse apenas um BRANCO total. Eles poderiam ter me sequelado de diversas formas, por que eu continuo lembrando dessas merdas? Por que SÓ EU LEMBRO DE TODA ESSA PORCARIA? Eles continuam rindo e agindo como se não fosse nada, como eles conseguem pôr a porra da cabeça no travesseiro e dormir, quando eu fico me revirando e acordando de 10 em 10 minutos?
Isso é tudo muito injusto.
Eu não quero ser feliz. Quero encontrar a paz...
Cíntia Lira, 772 palavras, 4.342 caracteres.